quarta-feira, 11 de agosto de 2010




arte de Rene Magritte


Então era assim, a tristeza dela. Então era assim a tristeza, uma coisa concreta. Vivida no corpo, encolhendo. Era assim uma coisa, uma dorzinha pontual. Na boca do estômago. E tal. Impregnando o corpo. Frio sentido, pouco real. Ela encolhida na beirinha da cama. Um pé com sapato, outro sem. O com sapato ia e vinha, fazendo um barulhinho com a palmilha. Então era assim a tristeza dela. Era assim até de ouvir o barulhinho que o pé fazia com o sapato. Entende? A tristeza encobrindo o silêncio a ponto de. Era assim mesmo. A tristeza. Era assim, uma vontade de ficar quieta. E pensando sempre a mesma coisa, sem pensar. Um medo. Um horror. Só dela. Era assim a tristeza, coisa que só ela sabia. Vivida dentro e posta no quadro, na cama, no abajur da mesinha de cabeceira. A tristeza era assim, pensando na mudança. Num outro quarto, num apartamento. No aluguel. Na conta atrasada e no cansaço de tudo, na fila logo mais, no Banco do Brasil. Inescapável. Você não sabia? Irreparável. A morte é assinzinha, mesmo. Inapelável. Você tem medo de que? O amigo tinha falado que preguiça e cansaço eram má fé. Ela nem tinha entendido o por quê. Má fé? A vida cansa, não cansa? E a tristeza esvai a nossa energia, a força, a vontade. Vontade de nada. Se não tivesse as crianças, sabeládeus. Sabe lá, o quê? Você teria coragem, se não tivesse as crianças? Você teria? Mas as falas dos filhos vinham lá de baixo, num prenúncio de confusão, a voz da empregada tentando brecar a briga. Inevitável. Enquanto o sangue não estiver escorrendo por debaixo da porta você não intervém. Enquanto o sangue. Nunca mais levou os filhos naquele pediatra caro. A vida é assim, não reclama de barriga cheia. Poderia ser pior. Mas ela achava que estava vivendo o pior até agora. E era disso que tinha medo. Do até agora. Medo ou tristeza? O luto é uma coisa que pesa. Uma coisa preta. Nas costas, ela sentia. Então era assim, a tristeza: um luto preto e pesado, pendurado nas costas. Onde quer que ela fosse. Então era assim a tristeza. E depois o medo. De só ter vivido até agora e não saber. Nada do depois. A frase do amigo sumido até hoje consolava, ninguém carrega cruz maior do que pode. Então, ela podia? Com aquela cruz e tudo? Como subindo uma ladeira numa tarde de sol e verão? Então ela podia. Encolheu-se mais pouco. Não queria. Mas o leite derramado. A filha, no café da manhã lendo a embalagem de leite e decepcionada e triste com a condição, este produto contém elementos químicos. É tudo química, mãe. O tio falou. Então tinha de comprar o mais caro. Leite puro. A filha não podia com aquilo de tomar química todo dia de manhã. Então a conta do banco, o cartão que não estava sendo pago. A filha com lágrimas nos olhos por causa da química, com um tantinho de pena dela mesma. A que ponto chegamos? Afinal era tudo leite, não era? Também não é assim. Uma quimicazinha todo dia, que mal? Somos fortes, sabia? O nosso corpo. Ela percebeu-se um pouco menos encolhida. A empregada lá embaixo gritava que era hora do almoço, as crianças sem nem querer comer. Ela fingiu uma voz que antes fosse real. Já vou! Ajeitou o cabelo e calçou os sapatos. O filho reclamando que não queria comer verde de jeito nenhum. Desceu cansada. Aquela voz de brinquedo indo embora. Tinha ainda de levar os documentos pra imobiliária. O apartamento. Parou no meio, recobrando as forças. Tá cansada, mãe? Olhou as caixas preparando a mudança. Muita coisa ficaria de fora. Deixada pra trás. Mas a vida. E coisa e tal.

1 comentários:

Anônimo disse...

oi Lili. Aqui é Lu Pires. Cai na sua página e gostei muito desse escrito aqui. Beijo.