terça-feira, 25 de agosto de 2009

Um bálsamo carmim



Minha infância tem cheiros e texturas - aromas. Aroma de um batom. Do batom dela. Minha infância tem memória desse aroma e de um querer viver para sempre ali. Naquela fragrância do batom trazida pela brisa que entrava pela janela aberta, enquanto ela se arrumava sentada em frente à penteadeira. Eu queria viver ali, naquele momento, naqueles grampos que esperavam em cima da mesinha de cabeceira, naquele pente que arrumava os cabelos. E no batom PAYOT, no seu gosto, no seu cheiro. Não que tivesse, alguma vez, beijado sua boca. Mas eu buscava estar o mais perto possível daquele batom enquanto ele estivesse em seus lábios. Quando líamos juntas, sentadas lado a lado e eu podia sentir o hálito que vinha suave e temperado, cheio daquela fragrância conhecida. Quando ela fazia minhas tranças e minha nuca recebia sua respiração. Em todos os momentos que passávamos juntas havia aquele batom.

A última vez que a vi, ela estava imóvel, rodeada de flores e aromas doces. Mas faltava o batom. Tirei o PAYOT da bolsa, um pouco vermelho demais para a ocasião e para seus lábios cada vez mais finos; que importava? Abri-o e senti a mesma brisa fresca daquela janela e dos momentos de todas as manhãs que se preparavam para mais um dia. Abri-o e quase pude tocar suas mãos ágeis penteando os cabelos. Mas desta vez fui eu quem pintou os seus lábios que guardaram para sempre o aroma onde eu tanto quis morar.

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