terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Ele nunca me prometeu um jardim de rosas

Fui eu quem plantou aquelas palavras entre as frases que ele costumava falar. Ele mesmo nunca me prometeu um jardim de rosas. No entanto, casei-me. Me achava moderna e nem tinha buquê. Muito menos roupa branca. Ou coroa de flores. Mas as rosas sempre ali. Como dívidas. Que nem mentira que se conta tanto que vira verdade. Eu lhe prometo um jardim de rosas. Parece até que era o timbre da voz dele ressoando em cada palavra dessa frase. Promessa quem nem combinava. Ausente em cada quilate da aliança comprada à prestação. Ele engordou, o dedo cada vez mais apertado naquele ouro vermelho. Vermelhas, as rosas. E a minha face rubra, a respiração presa querendo deter o momento e o frio na barriga de quem está só e com medo. Daquele ponto final no dia em que eu pude ver a marca que o aro havia feito no dedo anular. Ele nunca me prometeu um jardim de rosas. Nossa grama havia vingado no mês chuvoso em que ele bateu o portão. A trepadeira floriu. Finalmente e fora de época.

Saí sozinha e a pé. Precisava de botões e sementes. E sabia exatamente onde plantar.

terça-feira, 3 de novembro de 2009

O banho

Ela estava assim, sem mais nem menos, no quarto-cama-ensolarada-sozinha-domingo. À tarde. A menina de uns doze anos. A mãe com a louça na cozinha, reclamando do acumulado. Ninguém ajuda, é sempre assim. Barulhinho de torneira misturado com a narração do jogo de futebol. O pai jogado no sofá e mais uma latinha de cerveja em cima da mesa. A menina sem ter o que. Filha única. Nada a fazer. Calor de novembro rachando o dia num nem verão ainda, mas quase. E se chamasse a mãe? As duas, que nem uns anos atrás. A louça morando até o dia seguinte na pia. Podia naquela época, não podia? Mas a menina nem teve coragem. Fazia tempo que a mãe não era feliz. Mas a menina queria. Banho no jardim, pulando sozinha e fugindo do esguicho. De calcinha e já uns peitinhos que às vezes doíam. Foram os primeiros a ganhar o jato frio da água. Grito e risada. Tomar um pouquinho e cuspir, o que é que tem? Molhar a terra e pisar-sujar os pés, só pra limpar depois. A água branqueando as unhas, os pés, e então subindo pela canela grudando uns pelinhos finos na pele, gelando as coxas já meio grossas que nem as da avó, e fazendo transparente a calcinha branca de laço amarelo, escorrendo e inventando um laguinho mínimo dentro do umbigo, frio na barriga e arrepio, a menina fechou os olhos e sentiu um quente nas mãos. Eram outras, que ela conhecia bem, cheirinho ainda do detergente, enquanto o esguicho ia sendo roubado, escorregando entre as peles das quatro mãos molhadas. A menina arrepiou mais e de novo, encolheu os ombros esperando a chuva gelada e espessa como nenhuma outra de dia nenhum de verão. Fez questão dos olhos fechados e do grito e ouviu uma risada antiga, dos tempos que a louça ainda podia esperar, mas ela não, e num segundo seu corpo foi todo envolvido, enquanto o pai vibrava o gol lá na sala, e a menina-a terra-a grama-os cabelos, ela toda encharcada.

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Dueto

Você saiu do jardim sem avisar. Mãe dos meus filhos. Eu fiz o jardim pra você, lembra? E não durou nem um ano. Cê fazia tanta questão das rosas, do jasmim. Minha mãe passou mais de ano resmungando pela casa, até morrer, dissimulada! As paredes aprenderam, os móveis, os objetos, a sua ausência. Outro dia foi a vassoura, juro que ouvi enquanto a Maria varria, pra lá e pra cá. Dissimulada, dissimulada, dissimulada. Disse alguma coisa, Maria? Nada, não, seu Paulo, tô aqui varrendo quieta. Esse velho tá ficando louco!, deve ser o que ela pensou, a Maria. Ou então, esse velho sempre foi louco, por isso ela fugiu com o outro, o melhor amigo, o irmão. Dissimulada! Foi a vassoura, Maria? Termina logo essa varreção aí, quero ficar em paz. Sozinho. Por que o senhor não tira a foto dela da estante? Os meninos nem estão mais aqui. Deixa a foto, Maria. Deixa. Deixa a foto aí queimando com o sol da tarde, sol que insiste e desbota. Mas eu já tentei tirar. Não pense, não, que eu não tentei, viu? A foto é que grudou no vidro e rasgou um pedaço do sorriso. Sempre rindo de mim, do velho besta. Você saiu sem avisar. Nem tem mais jardim. O senhor não quer que chame o Hélio, seu Paulo? Ele gostava de cuidar do jardim. E eu tenho até medo desse mato que só, medo de rato, de cobra, de sapo. Eu também tinha medo. Ou certeza. Ou medo. Eu sabia. Você nem levou mala. Saiu de manhã no dia da feira. Os meninos passaram a infância perguntando. Esqueceram. Seu Paulo, o senhor não esquece de me dar a chave do armário? O bazar da igreja está chegando e eu falei dos sapatos. Tanta gente precisando. O que é que o senhor quer com aqueles sapatos? Tira ela da sua vida. Limpa esses armários, se desfaz dos sapatos. A poeira deles, pode deixar que eu tiro.

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Desenlace

De repente do riso fez-se o pranto. Meus olhos ainda estavam colados no livro. E o Vinicius. Ali, comigo. Então ele se virou, enquanto eu pensava no Felipe. Eu ainda pensava no Felipe. Os meus lábios repetindo sem som o último verso lido. Silencioso e branco como a bruma. E eu me lembrava do beijo do Felipe antes da tempestade. Antes dele me dizer que tinha a Lídia. Claro, que tonta. A Lídia. E das bocas unidas fez-se a espuma. E das mãos espalmadas fez-se o espanto. Eu pensava no Felipe e na Lídia quando ele pôs as mãos na minha coxa e me deu um beijo uma mordida um beijo e de repente da calma fez-se o vento. Os meus olhos ainda pregados no livro. E eu já nem sei se pensava no Felipe. Ainda. Pensava? E então ele desistiu, o Vinicius parou o beijo e tirou a mão da minha perna. Foi uma coisa assim meio sem jeito, meio que não tinha mais jeito entre a gente. Que dos olhos desfez a última chama. E então ele veio com aquela conversa de Congonhas do Campo, dos profetas. O que é que ele queria com essa viagem? Justo ele, que nem gostava de nada que não fosse planejado, aquela viagem bem ali, no meio do beijo? E da paixão fez-se o pressentimento. Não sabia se topava. Fechei o livro. Podia até ser, uma viagem, um passeio do nada. Ele ainda esperava a minha resposta. E do momento imóvel fez-se o drama. De repente não mais que de repente. No dia seguinte, em Congonhas. Os profetas, o silêncio de Minas, a força da tarde, a preguiça, o sol e o vento, as sombras, umas pessoas paradas que nem estátuas. Ele me perguntou se eu sabia latim. Não, eu não sabia.

Ele já sabia. E fez-se de triste o que se fez amante.
Esse texto foi escrito a partir de um conto de Ivan Ângelo e um poema do Vinicius de Moraes. Aos dois, meu agradecimento.

sábado, 12 de setembro de 2009

Miséria

Na rua:

- Moço, me dá 1 real?
- Hoje não.

Em casa:

- Amor, conversa comigo?
- Hoje não.

sábado, 5 de setembro de 2009

Pausa

Aos leitores do Pena de Aluguel, faremos uma pequena pausa até 13 de setembro. Aproveitem para passear pelos textos mais antigos...

terça-feira, 1 de setembro de 2009

Seda

finas linhas
em volta dela,
a lagarta

finos fios
tecidos lentos,
pela boca

fina camada
a separa do fora,
do vento

até que saia
e sinta
o bater das asas.

domingo, 30 de agosto de 2009

Jacques Prévert na domingueira


PARA PINTAR O RETRATO DE UM PÁSSARO


Para Elsa Henriquez


Primeiro pintar uma gaiola
com a porta aberta
pintar depois
algo de lindo
algo de simples
algo de belo
algo de útil
para o pássaro
depois dependurar a tela numa árvore
num jardim
num bosque
ou numa floresta
esconder-se atrás da árvore
sem nada dizer
sem se mexer…
Às vezes o pássaro chega logo
mas pode ser também que leve muitos anos
para se decidir
Não perder a esperança
esperar
esperar se preciso durante anos
a pressa ou a lentidão da chegada do pássaro
nada tendo a ver
com o sucesso do quadro
Quando o pássaro chegar
se chegar
guardar o mais profundo silêncio
esperar que o pássaro entre na gaiola
e quando já estiver lá dentro
fechar lentamente a porta com o pincel
depois
apagar uma a uma todas as grades
tendo o cuidado de não tocar numa única pena do pássaro
Fazer depois o desenho da árvore
escolhendo o mais belo galho
para o pássaro
pintar também a folhagem verde e a frescura do vento
a poeira do sol
e o barulho dos insectos pelo capim no calor do verão
e depois esperar que o pássaro queira cantar
Se o pássaro não cantar
mau sinal
sinal de que o quadro é ruim
mas se cantar bom sinal
sinal de que pode assiná-lo
Então você arranca delicadamente
uma das penas do pássaro
e escreve seu nome num canto do quadro.



de “Paroles” (1945)


tradução de Silviano Santiago para o livro Poemas de Jacques Prévert, Nova Fronteira.


Jacques Prévert (4 de fevereiro de 1900 - 11 de abril de 1977) foi um poeta e roteirista francês. Paroles (1946) foi sua primeira coletânea de poesias.

terça-feira, 25 de agosto de 2009

Um bálsamo carmim



Minha infância tem cheiros e texturas - aromas. Aroma de um batom. Do batom dela. Minha infância tem memória desse aroma e de um querer viver para sempre ali. Naquela fragrância do batom trazida pela brisa que entrava pela janela aberta, enquanto ela se arrumava sentada em frente à penteadeira. Eu queria viver ali, naquele momento, naqueles grampos que esperavam em cima da mesinha de cabeceira, naquele pente que arrumava os cabelos. E no batom PAYOT, no seu gosto, no seu cheiro. Não que tivesse, alguma vez, beijado sua boca. Mas eu buscava estar o mais perto possível daquele batom enquanto ele estivesse em seus lábios. Quando líamos juntas, sentadas lado a lado e eu podia sentir o hálito que vinha suave e temperado, cheio daquela fragrância conhecida. Quando ela fazia minhas tranças e minha nuca recebia sua respiração. Em todos os momentos que passávamos juntas havia aquele batom.

A última vez que a vi, ela estava imóvel, rodeada de flores e aromas doces. Mas faltava o batom. Tirei o PAYOT da bolsa, um pouco vermelho demais para a ocasião e para seus lábios cada vez mais finos; que importava? Abri-o e senti a mesma brisa fresca daquela janela e dos momentos de todas as manhãs que se preparavam para mais um dia. Abri-o e quase pude tocar suas mãos ágeis penteando os cabelos. Mas desta vez fui eu quem pintou os seus lábios que guardaram para sempre o aroma onde eu tanto quis morar.

domingo, 23 de agosto de 2009

Bruno Abreu na domingueira

Platônico



o bilhete de amor
tão contido
na caligrafia miúda
perdeu-se num bolso
na lavanderia dos sanchez-
os borrões azulados
do papel alvejado
em pedacinhos, tão poeticamente
foram-se


foi-se também
a lavanderia
tampouco ficaram
os sanchez

tampouco ficou
qualquer resquício da timidez
dos olhares
qualquer um
dos ônibus circulares
e daquele fim alaranjado duma tarde em abril
qualquer pedaço de pano
de horas a fio
noites em claro-
qualquer coisa que lembrasse
a antiga possibilidade
de um caso de amor.





Bruno Abreu é poeta, tem 16 anos e mora em Piracicaba, São Paulo. Publica seus poemas neste blog.

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

Meu sangue é água cristalina

de rio

Meu pensamento tem margens incertas

barrentas

pedras, rochas, pétalas, pedaços

às vezes tem uma ilha no meio

e eu me deito em seu colo.

terça-feira, 18 de agosto de 2009

Hora do almoço

Terminou o segundo prato. Pregou os olhos nas meninas e nas moças que passavam pela sala, de biquíni. Olhou para a única jovem vestida. Pensou na Mariana, a neta mais velha. A mais tímida. Era ela? Resolveu arriscar. Não, dona Odete, eu sou a Fernanda, namorada do Ivan, o seu neto caçula, lembra? A moça falava alto, como se a velha fosse surda. Ah, claro, o Ivan, meu neto. Dona Odete riu, constrangida. Apontou para uma menina de uns doze anos: ela também, minha neta. A garota retribuiu com um aceno. Oi bisa! Voltou-se de novo para a moça. Daniela? Valéria? Como pôde esquecer tão rápido? Renata, essa meninada toda em roupa de banho; nós estamos em Santos? Fernanda riu alto. Em Santos?! Santos já era. Nós estamos em Maresias. Ma-re-si-as. Dona Odete lembrou do cheiro da praia, o apito dos navios, a casa dos pais à beira-mar, as férias da infância. Botou os olhos no relógio da sala. Duas horas da tarde. Não conseguia entender como ainda não tinham lhe servido o almoço.

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

Lançamento de Contos de irmãos



O carinho dos amigos e família no lançamento de Contos de Irmãos, sábado, na Livraria da Vila, em São Paulo.



domingo, 9 de agosto de 2009

Alfonsina Storni na domingueira

Alfonsina Storni



BEM PODE SER...

Tradução de José Jeronymo Rivera


Bem pode ser que tudo o que em meu verso hei sentido

Não seja mais que aquilo que nunca pôde ser,

Não seja mais do que algo vedado e reprimido

De família em família, de mulher em mulher.


Dizem que nos solares dos meus, sempre medido

Estava tudo aquilo que se tinha a fazer...

Silenciosas dizem que as mulheres hão sido

Em meu materno lar. Ah, sim, bem pode ser...


Às vezes minha mãe terá sentido o anseio

De liberar-se, e logo viu subir-lhe do seio

Uma funda amargura, e na sombra chorou.

E tudo de mordaz, vencido, mutilado,


Tudo o que se encontrava em sua alma guardado,

Creio que sem querer fui eu quem libertou.


BIEN PUDIERA SER...


Pudiera ser que todo lo que en verso he sentido

No fuera más que aquello que nunca pudo ser,

No fuera más que algo vedado y reprimido

De familia en familia, de mujer en mujer.


Dicen que en los solares de mi gente, medido

Estaba todo aquello que se debía hacer...

Dicen que silenciosas las mujeres han sido

De mi casa materna... Ah, bien pudiera ser...


A veces en mi madre apuntaron antojos

De liberarse, pero se le subió a los ojos

Una honda amargura, y en la sombra lloró.

Y todo eso mordiente, vencido, mutilado,


Todo eso que se hallaba en sua alma encerrado,

Pienso que sin quererlo lo he libertado yo.



( do site de Antonio Miranda)


Alfonsina Storni, poeta argentina, nasceu em Sala Capriasca, na Suíça em 29 de maio de 1892 e faleceu em Mar del Plata, na Argentina, em 25 de outubro de 1938.

terça-feira, 4 de agosto de 2009

Carmim

Passar o batom é um cheiro de minha infância. Do batom dela. De sentir o aroma e querer viver para sempre ali. Naquele batom, naquela brisa que entrava pela janela, enquanto ela se arrumava sentada em frente à penteadeira. Eu queria viver ali, naquele momento, naqueles grampos em cima da mesinha de cabeceira, naquele pente que arrumava os cabelos. E no batom PAYOT, no seu gosto, no seu cheiro. Não que tivesse, alguma vez, beijado sua boca. Mas eu buscava estar o mais perto possível daquele batom enquanto ele estivesse em seus lábios. Quando líamos juntas, sentadas lado a lado e eu podia sentir o seu hálito que vinha suave e temperado, cheio daquela fragrância conhecida. Quando ela fazia minhas tranças e minha nuca recebia sua respiração. Em todos os momentos que passávamos juntas havia aquele batom.

A última vez que a vi, ela estava imóvel, rodeada de flores e aromas doces. Faltava o batom. Tirei o PAYOT da bolsa, um pouco vermelho demais para ocasião e para seus lábios cada vez mais finos; que importava? Abri-o e senti a mesma brisa fresca daquela janela e dos momentos de todas as manhãs que se preparavam para mais um dia. Abri-o e quase pude tocar suas mãos ágeis penteando os cabelos. Mas desta vez fui eu quem pintou os seus lábios que guardaram para sempre o aroma onde eu tanto quis morar.

domingo, 2 de agosto de 2009

José Eduardo Agualusa na domingueira


O homem que vinha ao entardecer (Ouvindo “Sonho de Um Camponês”, por Teta Lando)


Falava com devagar, ajeitando as
palavras. Falava com cuidado,
houvesse lume entre as palavras.
Chegava ao entardecer, os sapatos
cheios de terra vermelha e do perfume
dos matos.
Cumpria rigorosamente os rituais.
Batia primeiro as palmas (junto
ao peito)
Depois falava.
Dos bois, das lavras, das coisas
simples do seu dia-a-dia. E todavia
era tal o mistério das tardes quando
assim falava
que doía.


(Palavra de poeta - Antologia)


José Eduardo Agualusa nasceu a 13 de Dezembro de 1960 na cidade de Huambo, planalto central de Angola. Estudou Agronomia e Silvicultura e residiu, desde os seus tempos de estudante até época recente, em Lisboa. Atualmente, Agualusa reside no Rio de Janeiro, Brasil. Jornalista, membro da União de Escritores Angolanos. (do site Beto Gomes, para saber mais, clique aqui).
(Palavra de poeta - Antologia)

quarta-feira, 29 de julho de 2009

Manifesto por um Brasil literário

Manifesto por um Brasil literário" é lançado durante a sétima edição da Festa Literária de Paraty.
Foto: Zé Gabriel



Durante a FLIP, em Paraty, o escritor Bartolomeu Campos de Queirós leu o Manifesto por um Brasil mais literário. A iniciativa visa aumentar a presença da literatura nas escolas, comprometendo-se com políticas de iniciativas e ações de incentivo à leitura. Eu já assinei o manifesto, que tem o apoio do Instituto C&A, Associação Casa Azul, Instituto EcoFuturo, FNLIJ, AELIJ. Conheça o manifesto e faça parte deste importante movimento.

domingo, 26 de julho de 2009

Luís Miguel Nava na domingueira


(Mais uma vez ou sempre)


A PRETO E BRANCO



Uma mulher encosta-se a um muro, encosta-se à memória. Veste de uma maneira simples, uma blusa, uma saia cobrindo os joelhos, talvez uns tamancos. Tem ainda, amarrado à cabeça, um lenço negro, negros aliás e brancos todos os tons em que se veste, negros os tamancos, um casaco de lã sobre a blusa, negras ainda algumas das riscas da saia, brancas as outras, como a blusa. Encosta-se ao muro aonde cola as costas, os ombros e depois uma das faces, assim é mais fácil ver-lhe o rosto. As mãos encostá-las-ia também se não segurasse um lenço branco. Aperta-o entre os dedos, fá-lo passar entre eles, uma pequena serpente. Ou então amarrota-o, faz das palmas das mãos uma concha onde o esconde, o lenço assim desaparece totalmente, apenas as mãos se vêem projectadas para a frente, dir-se-ia que rezam. Depois sempre ocultando o lenço, levam-no ao rosto novamente de perfil, tudo a preto e branco ainda, ou é o rosto que desce até às mãos, mergulha no lenço, talvez este e a língua se procurem, uma língua pelo lenço adiante, uma língua é provável que vermelha, não, é tudo ainda muito a preto e branco, é tudo ainda demasiado a preto e branco para permitir um pormenor vermelho.



in Películas de Luís Miguel Nava..
Para saber mais sobre o escritor, você pode clicar aqui. Ou na wiki, para informações mais biográficas.

terça-feira, 21 de julho de 2009

Convite do lançamento




O livro eu já tinha mostrado, agora é a vez do convite para o lançamento, na Livraria da Vila, dia 8/8, às 15 horas. Para quem não viu a outra postagem, em Contos de Irmãos reúno e reconto histórias populares de sete lugares diferentes, Brasil, Angola, Peru, Portugal, Itália, Sibéria e China, a partir de seleções e contos apresentados por autores que aprecio bastante, como Italo Calvino, Câmara Cascudo, Silvio Romero, Consiglieri Pedroso, Antonieta Dias de Moares, entre outros. É um tema que me encanta há tempos. A universalidade e o encontro dos contos tradicionais de diversas culturas.


Espero vocês por lá!
Rua Fradique Coutinho, 915, Vila Madalena, São Paulo.

domingo, 19 de julho de 2009

Eucanãa Ferraz na domingueira

A palma da tua mão não tem segredo...

A palma da tua mão não tem segredo
algum. Letra em tua mão é de nome nenhum.
Não há mistério nem mensagem no lenho aleatório.

Tua mão tem destino noutras palmas.
Confidência, piedade, ira.
Deixa que, aberta, distribua-se ao ponto
– à perfeição – de não ser mais tua mão: pátio,
pouso necessário de quem jamais te viu.