sexta-feira, 28 de outubro de 2011

Voltei acompanhada de Orides Fontella

O tempo da volta foi o tempo do início de uma saída.


Torres

Construir torres abstratas
porém a luta é real . Sobre a luta
nossa visão se constrói. O real
nos doerá para sempre


Fatos

... fatos
são pedra duras

Não há como fugir.

Fatos são palavras
ditas pelo mundo

(exatrído de A hora da Estrela, de Clarice Lispector)

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Copo dágua

Eu faço uma tempestade
para não me afogar

Quando eu perdi a casa que não era minha - nemporconsideração,
eu ouvi - uma casa é um detalhe.
- E as pessoas que moram nela, o que são?

Quando meus filhos perderam a casa que não era deles - nemporconsideração,
eu ouvi - são tão netos como os outros.
- Mas não debaixo dos nossos tetos.

O que posso fazer
depois dessa tempestade?

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

Eu gosto de imagens de gente lendo e escrevendo


Essa é do Iman Maleki, artista iraniano.

O que eu mais queria

era que a minha vida saísse do papel.

domingo, 22 de agosto de 2010

maggie e milly e molly e may

arte de Pancetti


maggie e milly e molly e may
um dia foram à praia brincar

maggie encontrou uma concha que soava
um som tão doce e esqueceu seus problemas, e

milly brincou com uma estrela na areia
cujos cinco dedos finos eram raios;

e molly fugiu de uma coisa horrível
que corria de lado borbulhando bolhas: e

lá vem may com sua pedra rolando suave
pequena como o mundo e imensa como alguém.

Seja lá o que perdemos (como um você ou um eu)
é sempre o si mesmo que encontramos no mar.


Tales e eu traduzimos esta poesia de E. E. Cummings (poeta americano, 1894-1962), que no inglês é assim:


maggie e milly e molly e may
went down to the beach (to play one day)

and maggie discovered a shell that sang
so sweetly she couldn't remeber her troubles, and

milly befriended to a stranded star
whose rays five languid fingers were

and molly was chased by a horrible thing
which raced sideways while blowing bubbles: e

may came home with a smooth round stone
as small as a world and as large as alone.

For whatever we lose (like a you or a me)
it's always ourselves we find in the sea.

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Encontro com a escrita

Este texto foi escrito por encomenda, para todos os meus alunos do Curso de Escritas de Professor - Diários de Campo. E para quem mais quiser ler e se interessar, é lógico.

Foi assim. Gostar de escrever, eu sempre gostei. Meio sem saber, sem ter certeza. Sem nem pensar que isto poderia virar trabalho. Um dia. Essa história de criar um texto, juntar palavras. Fazer histórias. Desde pequena até. Gostava de escrever e sabia que sabia. A redação era às vezes escolhida, um modelo para a classe, mas nada muito exagerado. Não era sempre, não. Sem estardalhaço. Sem que eu achasse, vislumbrasse. A coisa toda só começou a acontecer de verdade quando eu voltei para a escola. Como professora. Esbaldava-me com os relatórios. Escrevia no fim de semana como num recreio. Mas o tempo passou. Fora a época da escola e dos relatórios, tive filhos. E depois de anos, recebi um convite que eu quase recusei. Mas não. Escrever numa editora? Com todo o risco, aceitei. Daí, a paixão. A descoberta. Encontro com a escrita, encontro comigo mesma, pequena. Então, aquela era eu? Há tanto tempo? Não tinha certezas. A escrita é coisa muito incerta, depende da gente mesma, do estado de espírito, de conseguir escrever. Duma hora estar triste, noutra alegre. Varia, de onde vem o material. A escrita não traz certezas, respostas. Antes, até duvida. Mas uma coisa eu sabia: era ali, no meio de frase-palavra-história que eu queria ficar.

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

A minha voz continua a mesma, mas...

cansei de ser verde,
agora quero tudo
azul

quarta-feira, 11 de agosto de 2010




arte de Rene Magritte


Então era assim, a tristeza dela. Então era assim a tristeza, uma coisa concreta. Vivida no corpo, encolhendo. Era assim uma coisa, uma dorzinha pontual. Na boca do estômago. E tal. Impregnando o corpo. Frio sentido, pouco real. Ela encolhida na beirinha da cama. Um pé com sapato, outro sem. O com sapato ia e vinha, fazendo um barulhinho com a palmilha. Então era assim a tristeza dela. Era assim até de ouvir o barulhinho que o pé fazia com o sapato. Entende? A tristeza encobrindo o silêncio a ponto de. Era assim mesmo. A tristeza. Era assim, uma vontade de ficar quieta. E pensando sempre a mesma coisa, sem pensar. Um medo. Um horror. Só dela. Era assim a tristeza, coisa que só ela sabia. Vivida dentro e posta no quadro, na cama, no abajur da mesinha de cabeceira. A tristeza era assim, pensando na mudança. Num outro quarto, num apartamento. No aluguel. Na conta atrasada e no cansaço de tudo, na fila logo mais, no Banco do Brasil. Inescapável. Você não sabia? Irreparável. A morte é assinzinha, mesmo. Inapelável. Você tem medo de que? O amigo tinha falado que preguiça e cansaço eram má fé. Ela nem tinha entendido o por quê. Má fé? A vida cansa, não cansa? E a tristeza esvai a nossa energia, a força, a vontade. Vontade de nada. Se não tivesse as crianças, sabeládeus. Sabe lá, o quê? Você teria coragem, se não tivesse as crianças? Você teria? Mas as falas dos filhos vinham lá de baixo, num prenúncio de confusão, a voz da empregada tentando brecar a briga. Inevitável. Enquanto o sangue não estiver escorrendo por debaixo da porta você não intervém. Enquanto o sangue. Nunca mais levou os filhos naquele pediatra caro. A vida é assim, não reclama de barriga cheia. Poderia ser pior. Mas ela achava que estava vivendo o pior até agora. E era disso que tinha medo. Do até agora. Medo ou tristeza? O luto é uma coisa que pesa. Uma coisa preta. Nas costas, ela sentia. Então era assim, a tristeza: um luto preto e pesado, pendurado nas costas. Onde quer que ela fosse. Então era assim a tristeza. E depois o medo. De só ter vivido até agora e não saber. Nada do depois. A frase do amigo sumido até hoje consolava, ninguém carrega cruz maior do que pode. Então, ela podia? Com aquela cruz e tudo? Como subindo uma ladeira numa tarde de sol e verão? Então ela podia. Encolheu-se mais pouco. Não queria. Mas o leite derramado. A filha, no café da manhã lendo a embalagem de leite e decepcionada e triste com a condição, este produto contém elementos químicos. É tudo química, mãe. O tio falou. Então tinha de comprar o mais caro. Leite puro. A filha não podia com aquilo de tomar química todo dia de manhã. Então a conta do banco, o cartão que não estava sendo pago. A filha com lágrimas nos olhos por causa da química, com um tantinho de pena dela mesma. A que ponto chegamos? Afinal era tudo leite, não era? Também não é assim. Uma quimicazinha todo dia, que mal? Somos fortes, sabia? O nosso corpo. Ela percebeu-se um pouco menos encolhida. A empregada lá embaixo gritava que era hora do almoço, as crianças sem nem querer comer. Ela fingiu uma voz que antes fosse real. Já vou! Ajeitou o cabelo e calçou os sapatos. O filho reclamando que não queria comer verde de jeito nenhum. Desceu cansada. Aquela voz de brinquedo indo embora. Tinha ainda de levar os documentos pra imobiliária. O apartamento. Parou no meio, recobrando as forças. Tá cansada, mãe? Olhou as caixas preparando a mudança. Muita coisa ficaria de fora. Deixada pra trás. Mas a vida. E coisa e tal.

sexta-feira, 30 de julho de 2010

Abri a gaveta e encontrei a pena

Lucila,
Foi você quem me falou que a literatura serve para atravessar. E por sua causa, voltei. Os blogues, os cadernos, as falas para as paredes. Tudo isso é um pouco ponte. A nossa casa, a nossa fala, o nosso pensamento, tudo o que atravessa a vida. Demorei para voltar, mas talvez esteja mais livre do encarceramento - isso foi o Orlando quem me falou, um dia. Precisamos tanto de nossas prisões, que aceitamos de bom grado o que nos amarra. Uma ordem maior. Prendia-me, essa ordem do racional, de uma lei que fingia ser singular, imperativa, poderosa. Discurso de caso pensado e certo, um bem pontuado jogo de palavras, enquanto eu enlouquecia do lado de cá. Enlouquecia pra não pirar de vez. Ou morrer. Uma morte morridinha e doce e amarga e dependente. Um casal tem as suas ordens. Gostinho doce-amargo-azedo. Forças e fraquezas. Que se alternam, menos do que se fixam. Como se casam, as nossas neuroses. Como se casam, dentro de leis tão poderosas quanto erguidas sobre castelos frágeis que pensamos eternos. Os casamentos e os seus topos-lugares. Grafias de uma história que se repete até que fique insustentável. Um texto que não podemos mais. Porque não podemos abolir assim a nossa vida e o que nos resta do tempo exato que temos pela frente. Demorei para perceber que parte da minha vida estava fora das minhas mãos, que o meu desejo sequer contava. Que eu não tinha meios e era atravessada por outros. Confortável. Um pouquinho confortável, sem dúvida nenhuma. Mas pouco vivível. Tudo contado por outros calendários aos quais me submetia enquanto balançava prá lá e prá cá na suspensão dos meus dias. Enquanto o quê não chegava? Enquanto a vida de verdade não chegava. Contas e bancos, cheque especial. A coisa comezinha da vida de adulto. Comezinha e presa nas regras do social. E livre das regras autoritárias do desejo do outro. De calendários soberanos que não eram meus. De desejos que não sentia nem passavam pelo meu corpo. Mas tive o meu quinhão. Aceitei. Palmas e orgulho de pertencer a algo tão forte. Daquele pedacinho de mundo que tinha um dono. Senhor da vida de todos, tende piedade. Tende piedade do desejo dos outros, do quanto podem crescer e sair. Senhor de todos os engenhos e de vontades eternas, tende piedade.
O amor tem estranhas formas e nem sempre salva.
Obrigada, Lucila, por esta volta e pelo amor, este sim.

terça-feira, 23 de março de 2010

Boas Novas em 2010: Contos de Irmãos no Catálogo de Bolonha


Anualmente, a FNLIJ, Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil, seleciona obras de literatura infantil e juvenil para representar o Brasil na Feira de Bolonha. Este ano, meu livro Contos de Irmãos, publicado pela Editora Moderna e ilustrado pelo Eduardo Albini está na lista, na categoria "reconto".


Se quiser conhecer outras obras selecionadas, basta clicar aqui.


Que bom voltar ao BLOG com esta boa notícia, depois de tanto tempo em silêncio.


terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Ele nunca me prometeu um jardim de rosas

Fui eu quem plantou aquelas palavras entre as frases que ele costumava falar. Ele mesmo nunca me prometeu um jardim de rosas. No entanto, casei-me. Me achava moderna e nem tinha buquê. Muito menos roupa branca. Ou coroa de flores. Mas as rosas sempre ali. Como dívidas. Que nem mentira que se conta tanto que vira verdade. Eu lhe prometo um jardim de rosas. Parece até que era o timbre da voz dele ressoando em cada palavra dessa frase. Promessa quem nem combinava. Ausente em cada quilate da aliança comprada à prestação. Ele engordou, o dedo cada vez mais apertado naquele ouro vermelho. Vermelhas, as rosas. E a minha face rubra, a respiração presa querendo deter o momento e o frio na barriga de quem está só e com medo. Daquele ponto final no dia em que eu pude ver a marca que o aro havia feito no dedo anular. Ele nunca me prometeu um jardim de rosas. Nossa grama havia vingado no mês chuvoso em que ele bateu o portão. A trepadeira floriu. Finalmente e fora de época.

Saí sozinha e a pé. Precisava de botões e sementes. E sabia exatamente onde plantar.

terça-feira, 3 de novembro de 2009

O banho

Ela estava assim, sem mais nem menos, no quarto-cama-ensolarada-sozinha-domingo. À tarde. A menina de uns doze anos. A mãe com a louça na cozinha, reclamando do acumulado. Ninguém ajuda, é sempre assim. Barulhinho de torneira misturado com a narração do jogo de futebol. O pai jogado no sofá e mais uma latinha de cerveja em cima da mesa. A menina sem ter o que. Filha única. Nada a fazer. Calor de novembro rachando o dia num nem verão ainda, mas quase. E se chamasse a mãe? As duas, que nem uns anos atrás. A louça morando até o dia seguinte na pia. Podia naquela época, não podia? Mas a menina nem teve coragem. Fazia tempo que a mãe não era feliz. Mas a menina queria. Banho no jardim, pulando sozinha e fugindo do esguicho. De calcinha e já uns peitinhos que às vezes doíam. Foram os primeiros a ganhar o jato frio da água. Grito e risada. Tomar um pouquinho e cuspir, o que é que tem? Molhar a terra e pisar-sujar os pés, só pra limpar depois. A água branqueando as unhas, os pés, e então subindo pela canela grudando uns pelinhos finos na pele, gelando as coxas já meio grossas que nem as da avó, e fazendo transparente a calcinha branca de laço amarelo, escorrendo e inventando um laguinho mínimo dentro do umbigo, frio na barriga e arrepio, a menina fechou os olhos e sentiu um quente nas mãos. Eram outras, que ela conhecia bem, cheirinho ainda do detergente, enquanto o esguicho ia sendo roubado, escorregando entre as peles das quatro mãos molhadas. A menina arrepiou mais e de novo, encolheu os ombros esperando a chuva gelada e espessa como nenhuma outra de dia nenhum de verão. Fez questão dos olhos fechados e do grito e ouviu uma risada antiga, dos tempos que a louça ainda podia esperar, mas ela não, e num segundo seu corpo foi todo envolvido, enquanto o pai vibrava o gol lá na sala, e a menina-a terra-a grama-os cabelos, ela toda encharcada.

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Dueto

Você saiu do jardim sem avisar. Mãe dos meus filhos. Eu fiz o jardim pra você, lembra? E não durou nem um ano. Cê fazia tanta questão das rosas, do jasmim. Minha mãe passou mais de ano resmungando pela casa, até morrer, dissimulada! As paredes aprenderam, os móveis, os objetos, a sua ausência. Outro dia foi a vassoura, juro que ouvi enquanto a Maria varria, pra lá e pra cá. Dissimulada, dissimulada, dissimulada. Disse alguma coisa, Maria? Nada, não, seu Paulo, tô aqui varrendo quieta. Esse velho tá ficando louco!, deve ser o que ela pensou, a Maria. Ou então, esse velho sempre foi louco, por isso ela fugiu com o outro, o melhor amigo, o irmão. Dissimulada! Foi a vassoura, Maria? Termina logo essa varreção aí, quero ficar em paz. Sozinho. Por que o senhor não tira a foto dela da estante? Os meninos nem estão mais aqui. Deixa a foto, Maria. Deixa. Deixa a foto aí queimando com o sol da tarde, sol que insiste e desbota. Mas eu já tentei tirar. Não pense, não, que eu não tentei, viu? A foto é que grudou no vidro e rasgou um pedaço do sorriso. Sempre rindo de mim, do velho besta. Você saiu sem avisar. Nem tem mais jardim. O senhor não quer que chame o Hélio, seu Paulo? Ele gostava de cuidar do jardim. E eu tenho até medo desse mato que só, medo de rato, de cobra, de sapo. Eu também tinha medo. Ou certeza. Ou medo. Eu sabia. Você nem levou mala. Saiu de manhã no dia da feira. Os meninos passaram a infância perguntando. Esqueceram. Seu Paulo, o senhor não esquece de me dar a chave do armário? O bazar da igreja está chegando e eu falei dos sapatos. Tanta gente precisando. O que é que o senhor quer com aqueles sapatos? Tira ela da sua vida. Limpa esses armários, se desfaz dos sapatos. A poeira deles, pode deixar que eu tiro.

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Desenlace

De repente do riso fez-se o pranto. Meus olhos ainda estavam colados no livro. E o Vinicius. Ali, comigo. Então ele se virou, enquanto eu pensava no Felipe. Eu ainda pensava no Felipe. Os meus lábios repetindo sem som o último verso lido. Silencioso e branco como a bruma. E eu me lembrava do beijo do Felipe antes da tempestade. Antes dele me dizer que tinha a Lídia. Claro, que tonta. A Lídia. E das bocas unidas fez-se a espuma. E das mãos espalmadas fez-se o espanto. Eu pensava no Felipe e na Lídia quando ele pôs as mãos na minha coxa e me deu um beijo uma mordida um beijo e de repente da calma fez-se o vento. Os meus olhos ainda pregados no livro. E eu já nem sei se pensava no Felipe. Ainda. Pensava? E então ele desistiu, o Vinicius parou o beijo e tirou a mão da minha perna. Foi uma coisa assim meio sem jeito, meio que não tinha mais jeito entre a gente. Que dos olhos desfez a última chama. E então ele veio com aquela conversa de Congonhas do Campo, dos profetas. O que é que ele queria com essa viagem? Justo ele, que nem gostava de nada que não fosse planejado, aquela viagem bem ali, no meio do beijo? E da paixão fez-se o pressentimento. Não sabia se topava. Fechei o livro. Podia até ser, uma viagem, um passeio do nada. Ele ainda esperava a minha resposta. E do momento imóvel fez-se o drama. De repente não mais que de repente. No dia seguinte, em Congonhas. Os profetas, o silêncio de Minas, a força da tarde, a preguiça, o sol e o vento, as sombras, umas pessoas paradas que nem estátuas. Ele me perguntou se eu sabia latim. Não, eu não sabia.

Ele já sabia. E fez-se de triste o que se fez amante.
Esse texto foi escrito a partir de um conto de Ivan Ângelo e um poema do Vinicius de Moraes. Aos dois, meu agradecimento.

sábado, 12 de setembro de 2009

Miséria

Na rua:

- Moço, me dá 1 real?
- Hoje não.

Em casa:

- Amor, conversa comigo?
- Hoje não.

sábado, 5 de setembro de 2009

Pausa

Aos leitores do Pena de Aluguel, faremos uma pequena pausa até 13 de setembro. Aproveitem para passear pelos textos mais antigos...

terça-feira, 1 de setembro de 2009

Seda

finas linhas
em volta dela,
a lagarta

finos fios
tecidos lentos,
pela boca

fina camada
a separa do fora,
do vento

até que saia
e sinta
o bater das asas.

domingo, 30 de agosto de 2009

Jacques Prévert na domingueira


PARA PINTAR O RETRATO DE UM PÁSSARO


Para Elsa Henriquez


Primeiro pintar uma gaiola
com a porta aberta
pintar depois
algo de lindo
algo de simples
algo de belo
algo de útil
para o pássaro
depois dependurar a tela numa árvore
num jardim
num bosque
ou numa floresta
esconder-se atrás da árvore
sem nada dizer
sem se mexer…
Às vezes o pássaro chega logo
mas pode ser também que leve muitos anos
para se decidir
Não perder a esperança
esperar
esperar se preciso durante anos
a pressa ou a lentidão da chegada do pássaro
nada tendo a ver
com o sucesso do quadro
Quando o pássaro chegar
se chegar
guardar o mais profundo silêncio
esperar que o pássaro entre na gaiola
e quando já estiver lá dentro
fechar lentamente a porta com o pincel
depois
apagar uma a uma todas as grades
tendo o cuidado de não tocar numa única pena do pássaro
Fazer depois o desenho da árvore
escolhendo o mais belo galho
para o pássaro
pintar também a folhagem verde e a frescura do vento
a poeira do sol
e o barulho dos insectos pelo capim no calor do verão
e depois esperar que o pássaro queira cantar
Se o pássaro não cantar
mau sinal
sinal de que o quadro é ruim
mas se cantar bom sinal
sinal de que pode assiná-lo
Então você arranca delicadamente
uma das penas do pássaro
e escreve seu nome num canto do quadro.



de “Paroles” (1945)


tradução de Silviano Santiago para o livro Poemas de Jacques Prévert, Nova Fronteira.


Jacques Prévert (4 de fevereiro de 1900 - 11 de abril de 1977) foi um poeta e roteirista francês. Paroles (1946) foi sua primeira coletânea de poesias.

terça-feira, 25 de agosto de 2009

Um bálsamo carmim



Minha infância tem cheiros e texturas - aromas. Aroma de um batom. Do batom dela. Minha infância tem memória desse aroma e de um querer viver para sempre ali. Naquela fragrância do batom trazida pela brisa que entrava pela janela aberta, enquanto ela se arrumava sentada em frente à penteadeira. Eu queria viver ali, naquele momento, naqueles grampos que esperavam em cima da mesinha de cabeceira, naquele pente que arrumava os cabelos. E no batom PAYOT, no seu gosto, no seu cheiro. Não que tivesse, alguma vez, beijado sua boca. Mas eu buscava estar o mais perto possível daquele batom enquanto ele estivesse em seus lábios. Quando líamos juntas, sentadas lado a lado e eu podia sentir o hálito que vinha suave e temperado, cheio daquela fragrância conhecida. Quando ela fazia minhas tranças e minha nuca recebia sua respiração. Em todos os momentos que passávamos juntas havia aquele batom.

A última vez que a vi, ela estava imóvel, rodeada de flores e aromas doces. Mas faltava o batom. Tirei o PAYOT da bolsa, um pouco vermelho demais para a ocasião e para seus lábios cada vez mais finos; que importava? Abri-o e senti a mesma brisa fresca daquela janela e dos momentos de todas as manhãs que se preparavam para mais um dia. Abri-o e quase pude tocar suas mãos ágeis penteando os cabelos. Mas desta vez fui eu quem pintou os seus lábios que guardaram para sempre o aroma onde eu tanto quis morar.

domingo, 23 de agosto de 2009

Bruno Abreu na domingueira

Platônico



o bilhete de amor
tão contido
na caligrafia miúda
perdeu-se num bolso
na lavanderia dos sanchez-
os borrões azulados
do papel alvejado
em pedacinhos, tão poeticamente
foram-se


foi-se também
a lavanderia
tampouco ficaram
os sanchez

tampouco ficou
qualquer resquício da timidez
dos olhares
qualquer um
dos ônibus circulares
e daquele fim alaranjado duma tarde em abril
qualquer pedaço de pano
de horas a fio
noites em claro-
qualquer coisa que lembrasse
a antiga possibilidade
de um caso de amor.





Bruno Abreu é poeta, tem 16 anos e mora em Piracicaba, São Paulo. Publica seus poemas neste blog.

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

Meu sangue é água cristalina

de rio

Meu pensamento tem margens incertas

barrentas

pedras, rochas, pétalas, pedaços

às vezes tem uma ilha no meio

e eu me deito em seu colo.